Em 1997, Michael Dell, o todo-poderoso da DELL, era o homem que mais fabricava computadores no mundo. Em meio a um evento de negócios/tecnologia foi indagado “o que você faria para salvar a Apple?”. Ele respondeu: “eu encerrava o negócio e devolvia o dinheiro aos acionistas”. Ainda naquele mesmo ano, Steve Jobs voltou ao cargo de CEO da Apple, e quando indagado com a mesma pergunta, respondeu: “Design”.

Dez anos após esses dois fatos, a Apple Computadores é a empresa mais valiosa do setor de informática no mundo, ultrapassando a própria DELL no ranking de fabricantes com maior atividade rentável do setor. Michael Dell teve de engolir as próprias palavras, e a imprensa especializada assistia, de forma cética, o lançamento dois produtos inovadores: o iPhone e o iPad. Três anos após seu lançamento, o iPhone tomou o mercado de usuários corporativos da então gigante canadense RIM. Surpresa? Nenhuma do ponto de vista de Jobs.

Hoje observamos muitas empresas focadas em Design e empresas focadas em Engenharia. A Motorola nos anos 2000 lançou dois modelos de relativo sucesso: o StarTek e o RARZ V3. Ambos, produtos de uma excelente tecnologia, mas de design modesto. Nenhum fabricante imaginaria que a Apple, com seu iPhone iria mudar o rumo do arquétipo dos celulares smartphones. Todos os grandes fabricantes olhavam o iPhone como sendo algo para Nerds ou um produto que não ameaçaria sua cadeia de vendas. Mas por seu design, interação e tecnologias embarcadas (multi-touch, iPod, Wi-Fi, Wireless…) se mostrou uma grande e inesperada inovação, que atraiu milhões de consumidores, mudando a telefonia móvel, sepultando de vez, a tecnologia WAP e influenciando o design dos smarthphones.

“Usar a ponta dos dedos para desenhar, acionar um aplicativo, ouvir sua música preferida é muito mais bacana, que usar uma caneta de metal ou o teclado fisíco”. Afirmou Jobs.

É quase um manta na internet, nos livros e nos seminários de design industrial citar a Apple como exemplo de empresas com design em seu D.N.A. Todo o perfeccionismo de Jobs, a elegância nos designs de Ive e o grande time de pesquisadores e engenheiros, construíram a imagem de empresa inovadora, apoiada em produtos com Design.

Também é notório percebemos que poucos, ou raros, produtos tidos “good design” tem surgido. Até então, o que vemos são aparelhos que buscam similaridade com os produtos Apple. O iPhone tem o seu design “referenciado” por fabricantes como a Samsung, Nokia, RIM e HTC. A própria Dell, Sony e Acer tem lançado produtos muito parecidos ao iMac. A ideia do computador-monitor sem CPU, é um novo arquétipo dos PCs, fugindo da enfadonha caixa bege, agora de diversas cores e formatos, mas ainda continuam sendo caixas. Mais uma vez, Jobs estava certo.

O uso do design na cultura estratégica das empresas, mudou o cenário da produção de produtos. Hoje design está muito mais ligado a sistemas, que apenas o contexto superficial de um produto ou marca nas empresas. Novos produtos não são apenas “produtos isolados”, mas se comunicam e criam novas experiências com outros produtos-acessórios. Negócios, oportunidades e ideias surgiram a partir disso, e continuam a surgir.

Um bom exemplo de produto que originou essa mudança, é o próprio iPhone – milhares de gadgets foram criados para ampliar a experiência de uso. Caixas de som, suportes, bases sonoras, adaptadores de monitor, aplicativos (APPs) e games que o tornaram um portal de convergência para entretenimento e produtividade, agregando sempre novas tecnologias (3G, acelerômetro, multi-tasking, retina display e novíssima 4G). Um bom produto não deve ser apenas engenharia, ou seja, potente, robusto, grande – mas interessante, fácil de usar, rápido ao funcionar, e seguir a “necessidade” para qual foi criado. A filosofia lógica por trás de todos os produtos Apple. O design não é apenas estético, mas funcional.

O design é importante, quando aliado a tecnologias honestas e empresas que entendem que um bom produto pode não precisa ser hi-tech ao extremo, mas que o seu design cumpra sua função, com o melhor custo-benefício possível. Empresas inovadoras tendem naturalmente a superar as empresas tradicionalistas (focadas em engenharia, processo), denotando seu posicionamento de mercado, apresentando produtos com um contínuo processo de inovação e melhorias.

Apple x Dell, lembram? Venceu o design, a inovação. Jobs estava certo ao investir em design.

Quinze anos mais tarde, a Apple vale US$340 bilhões.  Há estudos que apontam seu valor atual estaria na faixa de R$ 1 trilhão.

E o design, não é importante?